A saúde brasileira está doente, o diagnóstico está dado. E não é um mero resfriado comum, é um quadro complexo, repleto de sinais e sintomas difíceis de tratar, com causas multifatoriais que nem o mais experiente dos clínicos teria facilidade em manejar.

Mas o diagnóstico é apenas o primeiro passo na jornada médica diária. A partir dele é que pode-se ter início a amenização dos sintomas e, dentro do possível, se buscar a cura da causa (ou causas) subjacente(s).

E quais seriam as possíveis opções terapêuticas para melhorar o prognóstico desse país?

  • A Medicina Preventiva na Promoção de Saúde

A saúde não é meramente a ausência de doença, é um conceito amplo que envolve todo um bem estar físico, emocional, psicossocial em uma gama de fatores que poderiam envolver grandes discussões. Porém, de fato, a presença de uma doença é o critério maior utilizado por qualquer indivíduo para se questionar o estado saudável.

E se estão doentes, precisamos curá-los, certo? Assim, a maior parte da medicina funciona dessa forma “curativa” de se atingir a saúde. O hipertenso com seus diuréticos, o diabético e seus hipoglicemiantes, os distúrbios de humor com toda sua gama de psicotrópicos, o cardiopata com seus stents. Mas seria essa população polimedicada um exemplo de saúde sustentável?

A pergunta é retórica. Temos hoje as doenças crônicas não transmissíveis como principal causa de mortalidade no mundo. No Brasil, em 2015, elas foram responsáveis por 72,6% das mortes (SIM – Sistema de Informações de Mortalidade, 2015), sem contar a grande morbidade, diminuição da qualidade de vida, produtividade e altos custos que essas doenças de longa duração e, em maioria, incuráveis refletem na vida pessoal e economia do país

A resposta? Nada mais lógico do que, em vez de tratar uma doença, simplesmente prevenir seu aparecimento. A vasta maioria das doenças crônicas poderiam ter sido evitadas por simples mudanças nos hábitos de vida.

E então caímos no velho discurso de hábitos alimentares saudáveis, exercícios físicos com regularidade, boa qualidade de sono e tempo suficiente de lazer. Mas nem só do trivial vive a medicina preventiva. O que mais se prega em suas últimas atualizações é a base em evidências. Ou seja, a partir de uma abordagem individual e um exame clínico detalhado, o paciente pode ser monitorado com efetividade, levando em conta suas fragilidades, história pessoal, riscos familiares e predisposição genética.

Não estamos falando, aqui, de prevenção baseada nos famosos “check-ups” com listas enormes de exames que a população parece tanto gostar. Mas em uma simples abordagem pessoal com predição de riscos individuais para que a medicina não procure doenças em um quarto escuro e tenha uma luz mais direcionada.

E, claro, por mais clichê que tenha se tornado, os hábitos de vida saudáveis continuam como maiores aliados da promoção de saúde, antes de se chegar ao ponto de curar (ou melhor, mascarar) doenças.

  • Os Procedimentos Minimamente Invasivos

Nas cirurgias minimamente invasivas os cirurgiões usam uma variedade de técnicas para operar com o menor dano ao corpo possível. Em geral, essas cirurgias são associadas com um menor percentual de complicações, menos dor e comorbidades pós operatórias ao paciente e um menor tempo de recuperação.

Um dos tipos mais utilizados e mais antigos de cirurgias minimamente invasivas é a laparoscopia. Esse procedimento é feito por uma ou mais pequenas incisões na parede abdominal, onde se inserem pequenos tubos e por onde câmeras e instrumentos que permitem que a cirurgia seja realizada adentram o abdome do paciente. A laparoscopia pode ser utilizada para uma vasta gama de cirurgias abdominais, desde a retirada da vesícula, cirurgia bariátrica até a retirada de tumores malignos.

No tórax, com o mesmo princípio, existe a toracoscopia. As lobectomias, por exemplo, são cirurgias de grande porte para a retirada de um dos lobos do pulmão em que, quando realizada cirurgia aberta, há um grande tempo de recuperação, muitas vezes com fraturas de costelas, rompimento de músculos e outras comorbidades que as grandes incisões e alto tempo cirúrgico podem levar. Quando feita por vídeo, não há necessidade de afastamento das costelas e dissecção de grandes músculos, diminuindo expressivamente o tempo de recuperação.

Não poderíamos deixar de citar os procedimentos endovasculares. Através do uso de cateteres e guias, a cirurgia endovascular pode acessar aneurismas, placas de ateroma e obstruções desde as artérias coronárias, no coração, até o cérebro. Pacientes com doenças cardiovasculares muitas vezes já possuem outras comorbidades, como hipertensão, obesidade, diabetes, que os impossibilitariam de realizar uma cirurgia aberta. Com a chegada da cirurgia endovascular, essa técnica permitiu não apenas uma nova chance a esses pacientes, como também um risco cirúrgico expressivamente menor e uma recuperação em que muitas vezes sequer é necessário a estadia no hospital.

Por fim, a cirurgia robótica é o que há de mais novo na questão de procedimentos minimamente invasivos. Através dela, cirurgias complexas podem ser realizadas com grande precisão e mínimo dano ao corpo do paciente. O robô provê uma visão magnificada em 3-D ao cirurgião, que se encontra em outra sala, e ajuda a operar com grande flexibilidade, controle e precisão.

  • A Saúde Como Mercado

Nossos hospitais são uma tragédia do ponto de vista administrativo. Essa é a opinião de Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), que trabalhou em um projeto de reestruturação administrativa do Hospital das Clínicas.

Uma estratégia defendida por Fieldman é a ideia de que hospitais são como empresas e devem ser administrados como tais. São raras as instituições de saúde que possuem um sistema de gestão integrado online, o que já poderia otimizar a distribuição de recursos financeiros e de pessoal.

Os funcionários também poderiam ser mais bem treinados e medidos por performance, através da implementação de medidas de avaliação de desempenho. Cada pessoa tem o tempo estimado que a sua atividade deve demorar, por exemplo, e ao final de um período ela é avaliada por ter atingido ou não a meta esperada. É uma estratégia simples utilizada por empresas dos mais diversos ramos, por que existe um tabu tão grande em utilizá-la na saúde?

Talvez essa ideia de tratar a saúde como mercado gere certo desconforto na visão populacional, mas o fato é que existe um grande desperdício de recursos por má organização. As estratégias de mercado aplicadas à saúde não teriam, como temido, a consequência de tornar os hospitais menos humanos, mas sim mais eficazes.

O uso de um sistema de classificação de pacientes também é uma tendência que vem crescendo recentemente. O chamado Diagnosis Related Groups (DRG) é um sistema de classificação que relaciona os tipos de pacientes atendidos pelo hospital com os recursos consumidos, criando grupos de pacientes coerentes do ponto de vista clínico e segundo a quantidade e tipos de recursos consumidos pelo hospital, O DRG não tem como objetivo olhar para o sintoma ou doença, e sim para o doente e tende a ser uma grande ferramenta para mudança do atual modelo de remuneração, minimizando os efeitos de subjetividade e falta de confiança.

  • Prontuários Eletrônicos

No final do último ano, o Ministério da Saúde instituiu como obrigatório a utilização do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) nas Unidades Básicas de Saúde. Através dele, os médicos poderão consultar o histórico do paciente, com informações de atendimentos anteriores, diagnósticos, exames e medicações. O médico ainda pode consultar se a medicação utilizada está disponível na farmácia popular do município. O grande objetivo é racionalizar os recursos do SUS e ter um maior controle sobre o que está sendo investido com os repasses.

Com essa administração mais acurada, além da facilidade no atendimento do paciente, será possível mensurar se a UBS tem um público adequado, além de identificar as maiores demandas e reduzir custos ao evitar, por exemplo, a duplicidade de exames ou retiradas inadequadas de medicamentos.

Conforme o TIC Saúde 2014, apenas 35% dos estabelecimentos privados de saúde possuem prontuários dos pacientes totalmente eletrônicos, enquanto nos estabelecimentos públicos a realidade é ainda mais discrepante, somente 9% têm registros eletrônicos. Por outro lado, muitos sistemas utilizam a maneira híbrida de registro, onde os números já são maiores, demonstrando a tendência desse sistema.

  • O Componente Humano

O mundo está em constante mudança, de uma maneira cada vez mais acelerada. Não queremos esperar mais nada, tudo é para ontem e na saúde não seria diferente. Essa questão foi abordada no Seminário de Gestão: Tendências e Inovações em Saúde, como primeira palestra pelo gerente médico do Escritório da Experiência do Paciente do Hospital Sírio Libanês, Dr. Marcelo Alves Alvarenga.

Hoje, quase não mais se experiencia o modelo sacerdotal de relação médico-paciente, onde o que é orientado pelo médico é uma verdade absoluta seguida por seu paciente. Todos somos formadores de opinião em saúde e não há como fugir disso.

O que se preconiza, em contrapartida, é o modelo chamado contratualista, onde ambos médico e paciente são colocados como protagonistas na situação de cuidado e possuem compromisso na obtenção de sucesso. Não estamos, aqui, deixando a parte intelectual de lado, claro. Os pacientes estão, sobretudo, mais exigentes em relação a acertos, especialidades e conhecimento. Contudo,  a escolha primária da instituição pode até ter com base esses dados objetivos, mas o que cria o vínculo duradouro é a forma como se relacionam profissionais e pacientes.

O que nenhuma tecnologia pode tirar do ser humano é a compaixão, empatia, relacionamento interpessoal e humildade. É o que precisa ser desenvolvido tanto quanto o conhecimento, na medicina e no mundo.

  • Os Cuidados Paliativos

E não existe nada mais humano dentro da medicina do que os cuidados do fim da vida.

Visto com tanta evitação pela população geral e por próprios profissionais da saúde, a medicina paliativa é um dos campos que mais tende a crescer nos próximos tempos. Por que? Após anos evoluindo em tecnologia para a cura e manutenção de vida, parece que a medicina, pouco a pouco, está voltando para a visão do paciente como pessoa, e não como corpo.

Porém, o próprio termo “cuidados paliativos” ainda parece causar arrepio quando ouvido por um paciente, por uma família, ou até mesmo por alguém fora do consultório médico em uma conversa casual. Ele remete ao esgotamento de possibilidades, de esperança, de cura.

Mas não seria mais assustador ainda se a medicina curativa passasse por cima do cuidado humano? Se deixássemos meros corpos de familiares ligados a máquinas pelo egoísmo de não querermos vê-los partir? Se colocássemos tubos de gastrostomia para alimentar diretamente ao estômago um doente que nem mais sabe o que é comer? Se reanimássemos uma senhora de 90 anos após sua quinta parada cardíaca, e que nem mais quer ser reanimada?

O que é mais assustador? A aceitação da morte como história natural da vida ou a postergação do fim e insistência na doença.

A medicina paliativa surge como opção para os que aceitam que morrer é humano, e permitem que esse momento chegue da forma mais humana o possível. Ela não cuida da doença, mas sim do doente, e permite que seus últimos dias cheguem com conforto e compreensão. Como diria a Dr. Ana Claudia Arantes, “nossa cultura é frágil demais em consciência da finitude humana. Falta maturidade, integridade, realidade”. Precisamos entender que os avanços que teve a medicina vieram para cuidar do ser humano e permitir que a vida termine às vezes é o mais humano a se fazer.

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