O século passado foi marcado por um grande predomínio da medicina curativa, que tem seu enfoque em tratar a doença já instalada no indivíduo. De fato, muito se cresceu em abordagens terapêuticas, desde novos alvos farmacológicos até métodos cirúrgicos direcionados com a minima invasão possível. Tenta-se tratar o doente de forma que haja a menor interferência possível em sua vida e em seu corpo, e a medicina busca a cada dia ter maior efetividade com o menor dano. Mas sempre há a invasão, sempre há o efeito colateral.

À medida em que emergiram estudos relacionando fatores causais no processo de saúde-doença – como hábitos alimentares, tabagismo,sedentarismo, entre outros – a chamada medicina preventiva começou a expressar-se como grande promissora no campo da saúde. Afinal, existe solução melhor do que prevenir sequer o aparecimento da doença, dos seus custos, de suas comorbidades associadas, tanto ao tratamento quanto à enfermidade em si?

A lógica nos diz que não. A medicina preventiva chegou para que a curativa seja necessária apenas quando surge o inevitável. Ela apresenta basicamente quatro aspectos: a prevenção primária, secundária, terciária e quaternária. Iremos explorar sucintamente cada uma a seguir.

  • A Prevenção Primária

É aqui que entra a parte mais importante da medicina preventiva. É na prevenção primária que se retiram os fatores causais a fim de se evitar o processo de doença.

Parece simples falando dessa maneira, não é? Mas apesar de ser o ramo que menos requer recursos e que mais apresenta potencial na manutenção da saúde, é um dos mais difíceis de se colocar em prática. Por que? Vamos responder a essa pergunta com outra: o que você acharia mais fácil, tomar um comprimido todas as manhãs ou seguir uma alimentação regrada e se exercitar diariamente? A resposta sequer precisa ser proferida. Grande parte da população prefere escolher o caminho mais fácil e que menos requer esforço pessoal. “Perder 10kg baixaria minha pressão a níveis normais, mas por que eu vou fazer isso se posso tomar um comprimido de hidroclorotiazida e ela se normalizará da mesma maneira?”.

No mesmo cenário, a facilidade da medicina curativa também afeta os profissionais da saúde, afinal, é muito mais fácil preencher um receituário do que educar seu paciente a mudar seus hábitos.

Felizmente, caminhamos para um cenário de mudanças. Dia após dia surgem mais evidências da importância do estilo de vida na manutenção da saúde e prevenção da doença e o campo de pesquisa está com um enfoque muito grande nessa área. Médicos da atenção primária são orientados a sempre iniciarem os tratamentos pelas medidas chamadas conservadoras (que não envolvem medicações ou procedimentos) antes de partir para uma tentativa farmacológica. Além disso, repercussões de grandes estudos como o publicado pela Lancet* em agosto desse ano mostram à população a importância de se mudar a maneira típica ocidental de viver.

Apesar de ser uma área que não envolve grande necessidade de tecnologia e aparatos, a indústria já parece estar abrindo as portas para o campo da prevenção primária. Um exemplo é o crescimento dos chamados rastreadores fitness, um tipo de wearable device que permite um acompanhamento mais inteligente, e em tempo real, de suas informações individualizadas e de recomendações de atividades que evitem problemas futuros.

Link para o estudo: http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(17)32252-3/fulltext

  • Prevenção Secundária

A prevenção secundária já age na doença, porém em seu estágio inicial, quando ainda não há sintomas. Ela tem como objetivo diagnosticar o mais precocemente possível o surgimento de uma enfermidade e evitar possíveis complicações e comorbidades relacionadas a ela, além de possibilitar sua cura, evitar sua recorrência e a contaminação de terceiros (no caso de doença infecciosa).

Aqui, estão incluídos as terapias após a ocorrência de um evento (como infartos e AVCs), o tratamento precoce e isolamento de doenças infecto-contagiosas e um campo que vem crescendo muito na medicina: os famosos exames de rastreio.

Para que os exames de rastreio, ou screeningsejam aplicados como uma medida populacional, é necessário que a doença seja prevalente, o exame seja custo-efetivo e não invasivo e exista a possibilidade de tratamento para a condição.

Como métodos temos a mamografia para rastreamento do câncer de mama, o exame colpocitológico para o câncer de colo uterino e o PSA para o câncer de próstata. A exemplo da mamografia, 10 anos de seguimento chegam a reduzir a mortalidade por câncer em 25%.

Uma tendência na área da prevenção secundária é a biópsia líquida. Criada em laboratórios de pesquisa de universidades em 2008, principalmente na China e nos Estados Unidos, a biópsia líquida vive hoje um momento de expansão progressiva. O teste se baseia na detecção de minúsculos fragmentos de DNA que se desprendem dos tumores e caem na corrente sanguínea do paciente. Diferentemente de outros marcadores, como o PSA, que podem ser encontrados no sangue do paciente em outras comorbidades que não propriamente o câncer de próstata, a biópsia líquida  é um método muito mais específico, já que utiliza marcadores diretamente do tumor.

  • Prevenção Terciária

Nesse campo é realizada a reabilitação do doente após o processo de doença, visando a sua reinserção na sociedade com o mínimo de sequelas possíveis ou, ainda, evitar a progressão de determinada doença. Aqui, normalmente é necessária a intervenção associada da medicina preventiva e da medicina curativa. Com efeito, muitas vezes é difícil individualizar os seus papéis e não raro ela é exercida fundamentalmente através da terapêutica, controle e reabilitação médicas.

Como exemplo, temos a fisioterapia para reabilitação de sequelas decorrentes de traumas, AVCs, acidentes de trabalho, entre outros. São também parte da prevenção terciária as medidas educativas, como educação de indivíduos com deficiência visual ou auditiva.

  • Prevenção Quaternária

Por fim, caímos em um tema um tanto controverso. A prevenção quaternária, por diversas vezes, bate de frente com outros campos da medicina preventiva, especialmente o da prevenção secundária.

Apesar de a medicina preventiva aparentar ser o grande futuro no campo médico, como toda ideia promissora, ela também tem uma tendência aos excessos. Com a oportunidade de se estabelecerem fatores de risco cada vez mais precisos e diagnósticos cada vez mais precoces, surge juntamente uma “epidemia de riscos”, com limiares de intervenção cada vez mais baixos.

A prevenção quaternária entra com o objetivo de minimizar procedimentos desnecessários e iatrogênicos, evitar a “sobremedicalização” do paciente e objetivar uma decisão clínica criteriosa e racional.

Um exemplo um tanto polêmico é a utilização do PSA como método de screening para câncer de próstata. De fato, após a utilização desse exame, a detecção da doença aumentou, e muito. Porém, quando o assunto é mortalidade, dois grandes estudos demonstraram resultados um pouco divergentes. O “Prostate, Lung, Colorectal, and Ovarian Cancer Screening Trial” demonstrou que não há diferença alguma na mortalidade em indivíduos que realizam a triagem ou não, enquanto o “European Randomized Study of Screening for Prostate Cancer” chegou ao resultado de diminuição em mortalidade de 1 para cada 1000 pacientes triados. Exames anuais, biópsias, cirurgias com seus inúmeros riscos e efeitos colaterais e, ao fim de tudo, a variável mais importante (mortalidade) sequer mudou. Isso nos leva a questionar: seria necessário tudo isso? Será que um indivíduo não teria uma qualidade de vida muito maior se não tivesse que passar por tantos procedimentos?

Aqui entramos em um campo que gera grandes discussões entre especialistas e, por hora, não há resposta definitiva, apenas opiniões.

Primum non nocere” já diria o pai da medicina, Hipócrates. Em tradução, “primeiro, não causar dano”. A medicina preventiva vem com muitas promessas para o futuro, mas cabe aos profissionais o exercício da sensatez ao segurarem sua caneta e seu bisturi.

Para mais:

– http://www.inca.gov.br/enfermagem/docs/cap5.pdf
– http://www.mv.com.br/pt/blog/tecnologia-na-saude–a-revolucao-da-medicina-preditiva
– http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0091743514002631?via%3Dihub
– http://www.businessreviewbrasil.com.br/tecnologia/1401/melhor-prevenir:-como-a-tecnologia-auxilia-em-aes-de-medicina-preventiva-e-reduz-custos-de-empresas-e-pessoas

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